.21 setembro, uma lembrança: comecei com a moça do banheiro

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comecei com a moça do banheiro.

não que a moça fosse do banheiro, não que a moça é que começasse, é que seus olhos cruzavam com os meus durante um longo tempo pelo espelho de uma fila que aguardava para ir ao banheiro.

a moça me olhou, o espelho nos separava, corrijo, o espelho não separava, o espelho nos dizia que haviam dois olhares de banheiro que se desejavam e queriam se comer.

a moça do banheiro pegou então parte da fila mais próxima a mim, chegou bem perto, chegou bem perto ao ponto de sentir seu respiro no pescoço e esquecer de tudo e especialmente que aquilo ali era o banheiro.

ela, ela sem nome, sem identidade, ela com corpo e duas mãos fascinantes que me empurravam na coragem da transa do banheiro.

a moça do banheiro sem sexo na festa que não trazia divisões genitais, qualquer um podia entrar e ela entrou ela e depois eu e depois nos unimos numa fila que desaguou em duas línguas exatas e entrelaçadas lá dentro do banheiro.

ela, tão jovem tão ela, pegou minhas mãos, tapou minha boca para que o barulho não excitasse aos demais, depois tapou também com um beijo, tapou outras coisas dentro de mim que não sabia reagir, sabia me entregar às tuas mãos e as demais passagens de pele sobre minha bacia.

comecei com a moça do banheiro,

nunca mais vou esquecê-la.

sem esquecê-la é que tento me lembrar do nome dela.

ela que não levou identidade, não levou qualquer insegurança na tentativa de me arrastar para os olhares de um banheiro.

toda menina começa assim:

ela te olha,

a outra, ela

retribui.

e a partir daí não há mais nada que seja possível separar:

dois corpos se desejam

identificam-se

se tocam

reconhecem

as coisas parecidas que levam no meio das pernas

fazem com quê se amem

logo de cara.

duas caras e olhares convergidos em banheiro.

ela me descobriu o sexo

não hesitei porque cedi sem dar espaço pra saber que cederia.

sem qualquer convalescença.

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