.25 setembro, domingo, angústia

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acordo perdida há 3 domingos. a sensação de impotência com o domínio dos meus sentimentos têm me feito aleatória em meus 3 domingos de manhã. os domingos que são descansos e prazer de coisas que não fazemos na semana têm me despertado a vontade de estar na semana todos os dias. porque este dia de prazer perdeu algo de excelência ao dia do descanso e se tornou horas a serem passadas com uma angústia que não cabe na gente?

acordo perdida hoje domingo de novo e na vontade de me achar de alguma forma ouço vozes pela sala e encorajo a levantar pra ver quem são. são amigos que vêm visitar meu amigo de apê, olho para eles, dou bom dia e imediatamente depois não me reconheço mais.

me convidam a tomar uma xícara de café com eles, sento e ouço um pouco do que têm a me dizer. termino o café, saio para fazer qualquer coisa na rua, noto que as esquinas estão vazias exatamente como eu também estou.

dentro de meia hora volto. tomo mais um café, pego Patti Smith nas mãos, corro os olhos sobre ela na parte em que fala sobre não sentir vontade de voltar para casa, já que estar lá não a faz sentir melhor. me reconheço, adormeço sobre isso, ouço um mantra para receber luz, não sinto que recebo, minhas lágrimas continuam tendo vontade de lavar a parte do meu corpo que mais dói.

tomo meu banho, meu banho de quase 40 minutos, egoisticamente esquecendo da consciência ambiental e lavando tudo, até os cabelos que não desejava lavar hoje em domingo.

troco minha roupa, saio quase que correndo de novo. vou agora no centro de meditação budista, quase esquina da minha casa, entro sem conhecer nada dali, subo, devo retirar meus sapatos, sento em ásana de meditação, todos se levantam e fazem reverência a professora da vez. não compreendo e não concordo, mas faço o gesto também, já que estou ali deslocada sobre tudo.

as primeiras palavras dela atingem diretamente meu coração. ela parece acertar sobre minha tristeza, sobre minha angústia, ela parece olhar para mim e ver o quanto ando sofrendo.

a ideia desse dia de meditação do domingo é orar pela paz mundial começando pela nossa própria paz.

ela nos pede pra trazermos uma pessoa em mente e olhemos pra essa pessoa como se ela estivesse em nossa frente, ali também sentada no chão sem sapatos.

meus olhos desejam chorar muito, mas o ambiente ali impede que eu demonstre minha fraqueza, já que estou dentro de uma das filosofias mais coletivas que individuais e meu sofrimento é só meu, tenho vergonha por um segundo dessa minha incapacidade de enxergar além, o coletivo hoje é praticamente nulo dentro do que me remeti a sentir. assumo isso com a consciência do quanto isso é pequeno, mas olhar para minha dor neste momento é quase que aprender a orar pela paz mundial do meu universo. o universo individual que ainda há dor.

alguns minutos de silêncio e a professora pede que olhemos para aquela pessoa, profundamente, que mergulhemos nela e enxerguemos seus medos, suas dores, seus problemas. falar da dor do outro neste momento me parece uma ironia, mas faço o que ela me pede porque parece justamente que é disso que preciso.

olho pra dor dela, essa menina que trago na mente, para todos os medos dela que sei existir, para seus sofrimentos dos quais sei que ela deseja acabar. me concentro por minutos nesses pensamentos, a ponto de sentir que sou capaz de pegar todos eles na minha mão. é um pensamento abstrato mas concentrado e forte que quase se materializa perto de mim. em seguida, ela nos orienta que devemos juntar estes problemas, olhar mais uma vez profundamente para ela, a ponto de sentir a sua dor também e unir isso numa fumaça escura que vamos guardar por instantes dentro do nosso chakra do coração. sinto tudo isso bem forte, presto atenção, pegar seus sofrimentos na mão e trazer pra dentro do meu coração parece querer me derrubar naquela sala, mas me sinto forte pra fazer. a imagem de “salvar” alguém é muito inteligente neste momento, pois se não consigo salvar a mim mesma, como é que me sinto forte para salvar ela?

fico ali alguns minutos com os problemas dela, dentro do meu plexo cardíaco num domingo em que ele mais dói. faço então, em seguida, que essa fumaça evapore e suma e não doa mais nela nem em mim. a ideia de sensação de que ambas agora não sofrem traz um breve alívio nesse dia difícil de ser vivido.

(…)

calço meus sapatos, olho ao redor, observo que o exercício da mentalização ajuda, mas não acaba de vez com nada. nossos desejos imediatistas de cura só nos afasta dessa busca pela cura de verdade. pego meu lenço de papel, sinto que vou continuar a chorar, vou embora ainda mais triste de quando entrei ali, pareço carregar duplamente uma dor agora em mim. sinto que falta muito pra curar. sinto que falta muito pra amadurecer. não soube desaparecer a fumaça. ela ainda está em mim.

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