.27 setembro, última terça do mês, em primavera

.

acordo com a sensação de que Vitor está em casa.

me comporto como se ele estivesse. não ando nua, nem coloco música alta, finjo ter disposição para fazer as coisas, finjo organizar outras, escrevo num papel e colo na parede, não eram regras, apenas sugestões de disposições, escrevo.

tomo banho e vejo que a Editora me retorna a resposta da vaga de estágio dizendo que retornará em breve sobre a vaga de estágio. vejo que a Editora fica em Santo Amaro e que pra eu chegar lá preciso tomar um metrô até Pinheiros, uma estação daqui de casa, e depois tomar o trem na CPTM e atravessar a ponte até depois andar mais 7 min. como será que o Google calcula estes tempos nos passos, pois ele não sabe o tamanho de minhas pernas e talvez precisasse andar muito mais que 7 min e talvez o dobro dos minutos e isso mudaria tudo na logística do trajeto.

acordo não fazendo excessos de barulhos e vendo e-mails esperançosos, depois pensando em pessoas e em como me perdi nas horas da madrugada tentando entender meu mapa astral para lidar com essas pessoas. vi que a Lua anda perigosa nos deixando extra sensíveis acima da normalidade de nossos elementos regentes. isso explica muita coisas — pra mim.

depois lavo louça, falo com algumas moças que andam à minha espera (espera de quê?) e depois felizmente noto que Angélica Freitas passou a me seguir no instagram depois de um comentário imbecil meu que fiz numa foto sua de café Aviação — tentando chamar sua atenção — quando disse que o café era muito bom (mas ele é mesmo) tanto quanto a manteiga com gosto de infância. quem diz essas asneiras e quem segue a outra pessoa que diz a asneira de volta, ela só pode estar tentando entender em que nível existo numa poética de café e manteiga da Aviação do Sul ou de São Paulo?

ou então, duas poetas quase começando a se reconhecer.

meu sonho é um dia poder me deitar com ela. é… confesso. quase sempre tenho desejos eróticos por minhas poetas preferidas. nenhuma delas sabe disso. (…) esqueço todo meu dia e, agora, só penso em sexo.

.

17h18

sento em uma casa de chá. é uma das minhas preferidas na região. sento lá fora, mas tá vento forte, peço para entrar porque não desejo me resfriar.

peço um chá de hortaliça, quero dizer, hortelã ou menta fresca não lembro como vai no cardápio tenho dúvidas se essa erva é hortaliça e me pego pensando que não sei o que é uma hortaliça e tudo bem pois vou tomar mesmo assim.

coloco aquela foto na mesa, bem em minha frente, aquela que comprei num antiquário e que são duas mulheres se beijando com quadro no fundo de uma delas. começo a ler Patti Smith mas imediatamente preciso escrever, escrever todas essas baboseiras que escrevi até agora, o ato de escrever me remete a um mundo quase meditativo, um mundo só meu e sem interferências. desde que estive na França que não me sento desta forma e me ponho a escrever nadas.

(…)

entram dois moços na casa de chá, ambos são altos e estão sozinhos, parecem deslocados como eu, que agora não estou mais pois tenho a minha escrita.

paro um instante pra dar um gole da minha hortaliça porque agora ela vai ser sempre uma hortaliça e o moço que serve o chá está me olhando de canto, ele é bonito, me pisca, sorri e me olha como eu desejaria ser olhada.

quero muito ser arrastada pro banheiro e ser

comida.

a parte hipotética disso é que não tenho camisinhas e numa casa de chá não deve ter pra vender.

.

.

Leaver a comment