.As Coisas, Georges Perec

Em janeiro deste ano estive por Paris. Estive por Paris de uma forma diferente das que já estive antes. E exatamente com esta minha ida, foram também minhas inquietações sobre a forma como tomamos e encaramos e levamos o nosso ‘desenvolvimento profissional’. As inquietações estavam lá, mesmo estando em Paris, quando o Leo me apresentou As Coisas.

As Coisas foi emprestado pelo Leo, ele deixou comigo as páginas, a capa, seus rabiscos e marcações com posts its, uma leitura completa, embora isso pareça tão óbvio. É claro que ele não me tiraria partes do livro para o empréstimo, mas foi nesse empréstimo assim tão completo que me aprofundei no desassossego. Leo não imaginava que As Coisas soariam tão atuais para a Paris que eu caminhava e para os futuros lugares que eu visitaria. As Coisas que recebe um subtítulo de “um romance dos anos 60” está mais atualizado do que quando fora escrito. Georges Perec tão minucioso em sua riqueza de detalhes das cenas de Paris, tornando cada capítulo tão cinematográfico, me colocou de frente com as inquietações que vieram comigo a essa Paris de hoje.

Sylvie e Jérôme são dois jovens personagens que passam a vida tentando viver uma vida. Sylvie e Jérôme são um casal, um casal que precisa morar, comer, vestir, consumir, como qualquer outro casal e ser humano, o mínimo básico de sobrevivência ou qualquer outra ambição típica de casais, onde ambos não sabem muito bem em como fazer isso ao não ser “ir vivendo” um dia após o outro como psicossociólogos, a profissão deles. Uma profissão que consiste em aplicar questionários de estudos motivacionais para agências de publicidade que desejam captar novos consumidores (quanta ironia de Perec! hehe). O casal deseja manter-se em um emprego que possibilite um tempo maior nos encontros intelectuais com seus amigos, um tempo maior na vida boêmia, um tempo maior fora do trabalho em si. Pois, no fundo, ambos querem um emprego que lhes pague o suficiente para viver, seja esse viver em um bom e pequeno apartamento, seja adquirindo mercadorias desnecessárias que são expostas nas vitrines e revistas que eles leem e acompanham nas ruas de Paris (e Paris parece exercer uma influência consumidora sobre nós, consciente ou midiática – há os dois polos, pelo menos para mim).

Não existe passado ou futuro no planejamento do casal, e as coisas vão ganhando novos significados ao longo da história. Tudo começa de forma simples, Sylvie e Jérôme têm uma vida simples, com poucas coisas num aparamento pequeno, mas o contato com o mundo publicitário e com seus amigos “intelectuais” – que consomem e alimentam este sistema publicitário – faz Sylvie e Jérôme repensarem sobre o significado de cada objeto que possuem, dos espaços que habitam, o apartamento, o emprego, os cafés. A forma como optam em viver no começo da obra se modifica ao longo da vida do casal, mudança essa que só intensificou minha inquietação nas estadias em Paris – inquietação sem fim.

Sylvie e Jérôme vivem bem com o pouco que têm. Os fatos externos, a ascensão dos amigos, a visualidade exacerbada das vitrines, a sociedade de consumo, o render-se em “precisar” ter mais coisas, n’As Coisas, fazem com que o casal se perca em meio a isto tudo. Um casal com nível alto de intelectualidade, de formação de consciência social e de consumo, se perde em como ver o quê cada coisa representava a eles, se perde em meio às próprias coisas.

As Coisas foi uma lição atual a mim, um cenário dos anos 60 dentro do meu 2016. Uma ressignificação do que julgo como um bom trabalho, uma boa casa pra se morar, roupas adequadas, objetos, amigos e minhas referências. Uma unificação na reconstituição dos meus valores, dos valores que atribuo a cada coisa e pessoa que fazem parte do meu convívio.

O Leo não sabia que a inquietação do começo só se acentuaria lendo a história de Sylvie e Jérôme. Tenho certeza também que se ele soubesse que eu receberia Perec desta forma, me emprestaria mais livros dele. Essas inquietações d’As Coisas só nos levam a descoisificar muitas coisas, afinal, é pra isso que lemos, ouvimos, estudamos, convivemos etc etc etc..

(…) acostumados a viver em quartos insalubres onde apenas dormiam, e a passar os dias em cafés, eles levaram muito tempo para perceber que as funções mais banais da vida cotidiana – dormir, comer, ler, conversar, se banhar – exigiam, cada uma, um espaço específico, cuja ausência notória começou, a partir de então, a se fazer sentir.

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livro As Coisas, do escritor francês Georges Perec (1936-1982)

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outro livro dele, uma antiajuda nos manuais de autoajuda – A Arte e a Maneira de Abordar seu Chefe para Pedir um Aumento

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Georges Perec

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