.As mulheres de Virgina Woolf, Mrs. Dalloway e Ao Farol

As mulheres de Virginia Woolf

por Gabriela Lopes

Uma vez tive a oportunidade de ir a Londres. Como uma boa turista comprei um guia, marquei as páginas sobre aquilo que queria ver com marca texto verde e post its, anotei num caderninho outras referências, calculei quanto dinheiro tinha e podia gastar. Um destes post its marcavam as páginas do guia que indicavam e explicavam a história da National Gallery e eu estava animada por aquele amplo e importante museu gratuito, onde eu poderia ver Os Girassóis de Van Gogh. Contudo, eu não sei como fiquei sabendo, se antes ou durante a estadia em Londres, que ao lado da National Gallery havia um outro museu, a National Portrait Gallery, onde havia, na época, uma exposição temporária sobre Virginia Woolf.

Diferente do prédio imponente da National Gallery, a National Portrait Gallery fica na rua do ladinho ao museu maior, num prédio mais modesto e moderno. Você pode fazer a visita de cima para baixo, passando pelos retratos dos reis ingleses até chegar no Sir Paul McCartney, ou pode fazer a visita de baixo para cima, saindo de Gandalf e do Mick Jagger até os primeiros lordes. De início, eu achei estranho um museu de retratos, parecia um álbum de fotografia de uma família que não é a nossa, onde você sempre alheio ao sentimento e à memória daqueles momentos e daqueles rostos. Mas conforme andava pelo museu, começou a se tornar mais empolgante que a própria National Gallery: os traços daqueles que conhecemos dos livros de histórias, a mudança dos retratos conforme o tempo, a pintura, de repente, se transformando em fotografia, o para quê dos retratos, o porquê dos retratos. Com um mapinha do museu na mão, segui impaciente pela galeria até chegar na sala que guardava o único retrato de Jane Austen. Eu já havia o visto centenas de vezes nos livros e na internet, mas havia alguma inexplicável empolgação em mim para ver aquele retrato pessoalmente. O primeiro olhar foi decepcionante, eu esperava um quadro pequeno, mas não tão pequeno que coubesse na palma da minha mão. Além do mais, ele nunca foi concluído, então exigia algum esforço para ver as linhas que guardava um projeto antigo. A segunda impressão foi de uma delicada realização de vida: eu estava ali, diante do único retrato de uma das minhas escritoras favoritas, no país onde ela nasceu e viveu. Eu li Jane Austen a primeira vez com 14 anos. E mesmo que a menina de 14 anos desaparecera havia muito tempo, Austen continuava ali, sendo única a cada leitura, alimentando-me mesmo com a passagem do tempo, estabelecendo em cada releitura uma nova leitura. Ver seu pequeno, delicado e inacabado retrato foi como reencontrar uma amiga.

Não sei mais se foi antes ou depois de ver o retrato de Austen que vi a exposição sobre a Virginia Woolf. Na época, eu já tinha tido algumas tentativas de ler Mrs. Dalloway, inclusive ele devia estar na minha bolsa. O problema é que a leitura não engatava. Não me entediava, nem me perturbava, mas me perdia com facilidade, o que me forçava a, constantemente, voltar páginas ou reiniciar o livro. Acho que devo ter o recomeçado umas nove vezes antes de lê-lo integralmente. Porém, eu já havia lido parte de um Teto todo seu, o ensaio de Virginia sobre as mulheres escritoras, inclusive sobre a Austen, em que ela fala sobre a importância de uma mulher ter um espaço, um teto, só para si e “algumas libras” (independência financeira). Também já conhecia alguma coisa sobre a vida de Virgnia, sua constante depressão, sua importância no Círculo de Bloomsbury (inclusive tinha um roteiro planejado para conhecer o intelectual bairro londrino), sua trágica morte. Se ver o retrato de Austen foi reencontrar uma amiga, ver os retratos de Virgnia foi ser apresentada a uma amiga nova, sentir na sua seriedade, na sua melancolia e no seu único retrato sorrindo um compartilhamento da mesma dor.

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Jane Austen after Cassandra Austen, stipple engraving, published 1870.

Virginia Woolf, by George Charles Beresford, platinum print, July 1902.

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Tempos depois de ir a Londres os retratos de Austen e de Virginia me reencontraram dentro de romances como Mrs. Dalloway e Ao farol. Clarissa Dalloway é o retrato de muitas mulheres que existiram, existem, persistem dentro de nós: apoiada nos valores da classe burguesa que pertence e, ao mesmo tempo, ferida por tais valores que a oprimem, que a reduzem naquela que “medita entre as couves-flor”, “na perfeita dona de casa”, naquela que é para se olhar. Somos todas aquela Clarissa que guarda dentro de si a paixão por Sally Seton, que obviamente, era inaceitável até para ela mesma. Somos também o retrato dessa Sally que desafiava o mundo com sua nudez, com o seu rir daqueles que correspondiam aos padrões e às regras, com o beijo que deu em Clarissa, mas que também virou uma lady, igualmente encaixada naquela sociedade e em suas expectativas. Ou ainda podemos ser o retrato da Lady Bruton, detestada por Clarissa, pois falava de política como um homem. Não é possível se identificar totalmente com Clarissa, e nem com nenhuma outra personagem, o romance impede isso. E talvez a identificação nem seja desejada e se transforme em negação, “eu não quero ser Clarissa Dalloway”. Talvez todas nós ainda tenhamos sido Clarissa e, de alguma forma, ainda o somos. Na expressão melancólica de Virginia em seu retrato na parede da National Portrait Gallery é possível ver essa dor de Clarissa, Sally e Lady Burton entre se encaixar num lugar social preposto e o que individualmente se sonha ser.

Em Ao farol os retratos se concentram entre Mrs. Ramsay e Lily Briscoe. A primeira é, antes de tudo, a mãe. A mãe dos oitos filhos do Mr. Ramsay, a mãe do Mr. Ramsay, a mãe de Lily, a mãe de todos os outros convidados que a acompanham na casa de veraneio. Ela quer agradar o marido antes de tudo, mas por vezes ela o odeia. Ora o marido é um bom homem, ora é um egoísta autoritário. Ela está preocupada com o boeuf à danube e ao mesmo tempo acha todo aquele jantar e toda aquela conversa sobre a ciência uma grande mentira. Quer que Lily Birscoe se case, quando a vê conversando William Bankes, já pensa que eles têm que se casar. Ela vê que a beleza de Lily Birscoe está em seus tristes olhos cinzas, mas precisaria de um homem muito sensível para perceber isso. Lily é colocada numa tensão de expectativas: da Mrs. Ramsay querendo que ela se case, dos outros homens esperando que ela se torne a Mrs. Ramsay, o de William Bankes esperado uma brecha (?) ou uma simplesmente conversa. Lily é pintora, se se cassasse, pode continuar a pintar? Qual o valor de um quadro de uma mulher e um quadro de um homem? Há hipóteses que um dos motivos porque Jane Austen nunca se casou é que teria que deixar de escrever. Talvez Austen estivesse ali com a personagem de Virginia. Em que medida a arte é também das mulheres?

Mrs. Dalloway e Ao farol não são romances de respostas e de conclusões sobre um mundo objetivo e acabado. Não são romances de indivíduos que sabem perfeitamente quem são e onde estão. Mas a dúvida, a não-resposta, a inconclusão permitem o questionamento: qual é o seu retrato? Você precisa ser um retrato? Não dá pra ser tudo ao mesmo tempo? Posso me identificar com Clarissa Dalloway? Posso não querer ser Mrs. Ramsay? Posso ora ser Clarissa, ora ser Lady Burton? Posso ser Lily e a Mrs. Ramsay ao mesmo tempo? É ruim ser a Mrs. Ramsay? É bom ser a Lily?

Os romances e seus retratos nos levam para uma nova galeria que não é mais a National Portrait Gallery. Talvez seja uma galeria teimosa de perguntas, mas também de vontade de transformação.

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ilustrações baseadas no livro Mrs. Dalloway, por Lizzy Stewart 

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