.Bonsai, Alejandro Zambra

quando peguei Bonsai para ler, passeava despretensiosa pela Livraria Cultura. a ideia era só pegar em mãos e ler a contracapa, saber um pouco mais sobre Zambra, mas cai na ansiedade de folhear as primeiras páginas e justamente a primeira página que me travou nele até a ultima. isso mesmo, Zambra despertou meu interesse quando nas primeiras linhas me anunciou: No final ela morre e ele fica sozinho. nem sei direito se por compadecimento de conhecer que ele ficaria sozinho ou por querer saber o motivo que levou ela a morrer, só sei que não larguei mais o livro, sentei ali no chão e fui até o final. a Vi estava comigo, a amiga doida que topou sentar e ler juntas (=D). cada página é uma descoberta tão sutil mas grandiosa que você simplesmente não tem vontade de parar de ler. a segurança como Julio anuncia que gosta de ler Proust sem nunca ter lido Proust, me fez querer entender como Proust os uniria. a trama vai se interligando pela curiosidade dela, Emilia, em entender mais dos gostos literários de Julio e, por meio desse interesse, vão se entregando à vontade de se conhecerem amorosamente. ambos são estudantes e entre leituras que fazem no quarto, juntos, vão tornando perverso um amor que acaba muito antes de se começar direito. pois será a partir desse término que Zambra vai nos contar como essa influência de se conhecerem se perpetuou em suas vidas, o modo como Julio decide viver levando diariamente as consequências das lembranças do amor por Emilia. e Emilia por se relacionar com tudo e todos sem deixar apagar a lembrança do que viveu com Julio. ela morre, o anúncio feito no começo realmente acontece, mas o que torna presa a nossa atenção é essa ligação que tiveram, quando jovens, que teve ressonância para o resto de suas vidas.

Você mudou minha amiga (fala da amiga de Emília). Ela não era assim.

E você sempre foi assim?

Assim como?

Assim, do jeito que você é.

Emilia interveio, conciliadora e compreensiva. Qual o sentido de ficar com alguém se essa pessoa não muda sua vida? (…) a vida só tem sentido se a gente encontra alguém que mude, que destrua sua vida.

o escritor aproveita dessa atmosfera literária que o livro todo é para apontar a metalinguagem de Julio ser um aspirante a escritor, a fazer literatura, seja ela escrita ou sob as metáforas a que é posto em diversas situações. Julio respira literatura ao passo que não consegue escrever direito. ele treina e estuda as formas como os grandes literários fazem, por exemplo, para sujar seus manuscritos com café, algo que deveria acontecer natural mas que ele força em seus cadernos, como se vê forçando também a ser um escritor.

e o bonsai?, alguém perguntaria. o bonsai é a simbologia desse amor. o bonsai é o nome do livro que Julio tenta escrever no papel de escritor. ambos, o amor e o ato de escrever, são assim representados, pela simbologia da relação entre vaso e planta que Julio e Emilia criam para eles, quando estiveram juntos e quando foram separados, marcados pela importância um ao outro.

Um bonsai é uma réplica artística de uma árvore em miniatura. Consta de dois elementos: a árvore viva e o recipiente. Os dois elementos têm de estar em harmonia e a seleção do vaso apropriado para uma árvore é, por si só, quase uma forma de arte. (…) uma vez fora do vaso, a árvore deixa de ser um bonsai.

o livro é do escritor chileno Alejandro Zambra (1975), e foi adaptado pelo diretor Cristián Jimenez (1975) na forma de drama. está disponível completo online. (não achei na língua original, só dublado).

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