.Charlotte, As Afinidades Eletivas, Goethe

Charlotte de Goethe, em As Afinidades Eletivas

por Gabriela Lopes Azevedo

O romance de Goethe, As afinidade eletivas, é agradável de se ler, bonito e tem um final surpreendente, suscetível a inúmeras reflexões e possibilidades de interpretação sobre o homem, a natureza e a civilização.

Trata-se de um casal, Eduard e Charlotte, que eram casados com outras pessoas, mas o acaso e a boa sorte os tornou viúvos, possibilitando que ficassem juntos. Tudo parece em seu devido equilíbrio quando resolvem receber em seu castelo um amigo de Eduard, o capitão, que estava precisando de um auxílio, e Otille, protegida de Charlotte que precisava de uma orientação educacional. Os convidados não são em si a razão da quebra da harmonia do casal, o capitão era talentoso, inteligente e prestativo e auxilia as obras de melhoramento do jardim; já Otille era doce, meiga, esforçada e ótima companhia. Quando tocavam música, Charlotte, que era excelente pianista, fazia o papel de bom maestro e inteligente dona de casa e acompanhava os descompassos do marido na flauta. Entretanto, Otille parecia absorver em si os mesmos defeitos de Eduard, enquanto o capitão era excelente violinista e era o acompanhante perfeito de Charlotte. A música acompanha o amor, o verdadeiro culpado do desequilíbrio do casal. Eduard se apaixona por Otille e é correspondido por ela em seu desejo e o mesmo ocorre entre Charlotte e o capitão. Como aceitar tais apaixonamentos se há o casamento para impedir a consumação desse amor? Quem vence? O casamento ou o amor?

Esse é o fio condutor do maravilhoso livro de Goethe. O título do livro se vale de um princípio da química das afinidades eletivas entre componente e reagentes. São as afinidades eletivas que proporcionam o sentimento da paixão nos quatro personagens. Então, é permitido ao “mísero leitor”, como diria Brás Cubas, de assumir e declarar suas afinidades eletivas por um personagem também? Se tal liberdade me fosse concedida, deveria falar de Charlotte. Vejo-a com cabelos castanhos intensos e sempre o mesmo ar de seriedade misturado com tranquilidade. Ela chega a encontrar um bilhete comprometedor do marido para Otille e ela mesma lhe devolve, sem lhe advertir ou lhe condenar. Não acho, entretanto, que isso signifique submissão, mas um compromisso constante com o dever e com a harmonia. É verdade que enquanto Eduard se entrega ao amor romântico, agindo de maneira totalmente inconsequente, colocando Otille e seu amor como as únicas forças motivadoras de suas ações, Charlotte tenta o tempo todo restabelecer o equilíbrio, sabe que tem que se afastar do capitão e que precisa reorganizar seu casamento. Isso significa, talvez, um maior adesão as convenções sociais e ao seu papel como mulher. Contudo, diferente das caracterizações mais clichês das mulheres, Charlotte age o tempo todo pautada pela razão, aquele que é histérico e desmedido é Eduard. Outro fato que, talvez, desafie tal ideia de submissão feminina é o fato que o capitão age da mesma maneira que Charlotte; mesmo profundamente apaixonado por ela, ele se guia pela razão, sabendo que o amor encontra sua barreira no casamento, se necessário ele se afasta e ele próprio tentar combater as ações românticas desmedidas de Eduard.

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O que me impressiona em Charlotte não é essa recusa do amor romântico, mas é como ela é o tempo todo testada e ao mesmo tempo sempre forte. Definitivamente, ela é a personagem que mais é testada e mais sofre perdas, mas mantém-se é a mais forte e a mais generosa. Vejo Charlotte como uma inspiração na medida em que ela olha sempre para o problema com determinação, assim como a vejo em frente aos homens com toda a coragem e com toda a postura e com confiança em suas próprias ações que tantas vezes nos faltam. Na literatura é difícil e raro, mas na realidade ainda mais, uma postura feminina inabalável, forte e que parece se impor como igual aos homens. E é por isso que Charlotte me inspira.

Se me é permitido ser uma leitora mais mísera ainda, tal caracterização inspiradora de Charlotte me provoca o desejo que o final do livro fosse diferente. Obviamente, qualquer coisa que eu proponha em que Charlotte terminasse casada com o capitão seria uma transformação do livro neoclássico de Goethe em um romance barato de amor romântico e seria transformar boa literatura em literatura ruim. Existem muitos livros de qualidade bastante questionável que propõe outros finais ou continuações para os clássicos. Já vi diversas histórias que traziam o depois do casamento de Orgulho e Preconceito ou que refaziam a narrativa adicionando ao final um beijo enlouquecido de amor. O problema é que, no momento em que isso é colocado, contraria todo o projeto de romance e a ideia de amor que Jane Austen defende. Por vezes, eu queria que Charlotte gritasse com Eduard e com Otille, que não os perdoassem, que o capitão declarasse seu amor insuperável por ela e que fugissem juntos. Mas tudo isto deturparia exatamente o que mais me toca em Charlotte, sua coragem, sua postura de enfrentamento diante do mundo. Ela perderia sua força para se tornar uma personagem comum de um romance fraco e clichê.

Provavelmente, este romance fraco existem em mim mesma, alimentado por todos esses filmes de Hollywood e histórias bobas que consumimos todos os dias. Talvez o Goethe esteja aí para expor exatamente isso, o problema desses lugares comuns. Porém, o quanto é possível condenar aquele que ama ou se inspira num personagem? Existem crimes ou pecados literários? Descumprimento dos preceitos de um bom leitor de clássicos? Não sei de nada disso. Mas sei que, ainda que eu deseje ler uma página de uma efusiva declaração de amor dela e do capitão, isso faria com que a Charlotte não fosse mais a personagem que eu admiro. Ela o é porque tal página não existe. E é isso que um bom texto faz, ele penetra na sua imaginação, nos seus desejos. E também te dá companhias, amigos, modelos e inspirações, assim como As Afinidades Eletivas me deu Charlotte.

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