.correspondências entre nós, Memorialismo Brasileiro: Cartas

.

.

O resultado da minha inquietação sobre a efemeridade dos relacionamentos sociais, o resultado de um texto acadêmico, mas a vontade de desconstrução puramente baseada num escapismo reencontrado no meio do prazer de se trocar cartas.

[o texto é acadêmico, pois foi resultado de um trabalho final de uma matéria sobre Cartas na faculdade, mas mesmo assim gostaria de compartilhá-lo aqui].

•  •  •

“Escreves-me com frequência, o que me é grato, pois assim te mostras a mim (te mihi ostendis) pelo único meio de que dispões. De cada vez que me chega carta tua, eis-me de imediato juntos. Se ficamos felizes por possuir os retratos dos nossos amigos ausentes… quanto mais nos não alegra uma carta, pois traz vivas marcas do ausente, o cunho autêntico da sua pessoa. O traço de uma mão amiga, impressa nas páginas, proporciona o que há de mais doce na presença: reconhecer”. (Seneca)

Tomando como base A escrita de si, texto de Foucault, que nos elucida sobre a epistolografia como marca presente do sujeito que escreve, e outros textos da bibliografia que vimos estudando ao longo do curso, entendemos que as formas de escrita de um autor epistolográfico podem variar de individuo para individuo, mas que há pontos em comum entre todos eles da ordem da transformação da verdade em ethos: a escrita como forma de preenchimento da solidão, a escrita como confissão, sobre um transcorrer dos movimentos internos da alma.

A escrita de si no sujeito que escreve uma carta para se fazer presente àquele que recebe esta carta e, sobretudo, colocando suas particularidades à mostra, sua vontade de se fazer “visto”, de se dar àquele outro, de mostrar o rosto próprio junto ao outro, por uma caligrafia, um papel escolhido a dedo, uma postagem, é de se compreender que a intenção é quase sempre de atingir um encontro entre estes dois seres que se comunicam, ao nível da presença sentida quase que fisicamente, pois são dois sujeitos que passam a se reconhecer por meio do papel, da escrita e da leitura.

Pois se, por meio de uma carta atingimos a sensação do face-a-face, e todas essas revelações que se faz dentro de uma carta, confissões, conselhos e opiniões dadas um ao outro – principais ideias de quem se escreve cartas -, como reproduzir estas mesmas sensações e intenções dentro destas novas e atuais tecnologias a que estamos expostos? Correios eletrônicos, WhatsApps, redes sociais, blogs etc, são meios de comunicações completamente virtuais, onde as impressões digitais e presença física são praticamente nulas, como se atingir o nível de presença por meio das telas de computadores? Se Foucault nos explicita que “a narrativa de si é a narrativa da relação a si […], são interferências da alma e do corpo (mais as impressões que as ações) e os lazeres (mais do que os acontecimentos externos), a narrativa da relação a si é o corpo e os dias”, como projetar essa relação de si que acontece pelo corpo em si por meio de uma completa virtualidade?

Sabemos que a carta em si não projeta o sujeito (físico, corpo) para o local de seu destinatário, mas a materialidade do objeto (carta) que o outro recebe é a simbologia da extensão desse sujeito. Se uma vez tratarmos as comunicações com a ausência dessa materialidade e nos restringirmos ao nosso papel social de sujeito virtual, entendemos que a sensação de ausência será ainda mais potencializada. Há um contraposto de ideias dentro dessas correspondências modernas, quando toda a tecnologia é pautada para a ideia de aproximação, momentaneidade e rapidez na conversa, ela é proporcionalmente ainda mais ausente que uma carta, onde existe matéria e nos outros meios não, apenas uma ideia de matéria.

Sabemos também que todas estas mídias nos “vendem” sensações de aproximações e velocidades nessas aproximações, mas não poder “pegar” e receber o outro, põe por água abaixo o preenchimento deste encontro, a medida em que possuímos em nossas mãos um mero material eletrônico (computador, celular) e dentro disso, nada tem das marcas do sujeito que nos escreve. É um distanciamento dentro de uma falsa aproximação. Ter uma carta em mãos é segurar seu correspondente pelos dedos, é poder apalpar sua caligrafia pela força exercida no papel, é poder cheirar o papel escolhido e ter todas as boas sensações que uma carta lhe dá: a retirada na caixa de correios, o rasgar do envelope, a ansiedade para saber o que ali está escrito, quais elementos que vêm juntos desse papel (postais, bilhetinhos etc), tudo exercido no seu tempo, na sua velocidade, no seu ritual de leitura de receber um amigo ou um amor. As novas formas de correspondências, aos meus olhos, tornaram tudo tão impessoal, que empreendedores destas redes, e-mails, blogs etc tiveram de, continuamente, procurar saídas para sanar as sensações de ausência e, então, criaram novas formas de se receber o outro que está distante: Skype, FaceTime, vídeos instantâneos etc. Talvez a intenção seja dar uma “cara” a esse sujeito que “escreve” e a esse que “lê”, intenção primeira da carta onde o face-a-face é simbolicamente atingido pelo papel.

.

E foi por meio da escrita epistolográfica que o escritor presente passou a expor suas atividades, seus sucessos e fracassos, suas angústias mais íntimas, coisas que se perderam dentro destas tecnologias, onde a grande maioria dos “escritores” escancaram a vida de forma bastante banal, estética, superficial e mentirosa (fake). A escrita de si nestas tecnologias serve para “pautar a nossa vida como se toda a gente a olhasse” (Seneca), mas de forma muito mais vazia e aparente do que o quê se é dito na intimidade de uma carta.

Mostrar ao outro as partes “boas e felizes” de uma vida se tornou muito mais “agradável” de se ser leitura do que assumir o posto da exposição das partes completas, verdadeiras e de como tudo realmente acontece na vida de um indivíduo (suas tristezas, seus desgostos, seus fracassos). Ser lido desta forma, nas particularidades infelizes, não é mais tido como algo “legal” de se mostrar, uma vez que a exposição disso se tornou geral e com amigos virtuais, pessoas que não se conhecem, sujeitos sem grau de intimidade e empatia alguma. Se escrevo uma carta a alguém que prezo e esse alguém que, subentende-se, também tem afeição por mim, ambos desejam se lerem por completos: todas as angustias, as sortes, as felicidades, os estados deprimidos e incertos que a alma sente. A conversa é atingida com certa reciprocidade e não com o caráter de animosidade ou mero observador da vida alheia. Esta sensação de mera curiosidade, imparcialidade e superficialidade no comportamento dos indivíduos dentro das mídias sociais, e-mails, WhatsApp, me causam uma certa repulsa na interação e uma determinada resistência em ceder à aceitação da velocidade que tudo isto nos domina.

Por muitos anos mantenho com carinho alguns amigos em correspondências e penso que jamais vou querer cessar isso. A alegria de recebe-los desta forma em minha casa e a cumplicidade em parar para escrevê-los é muito mais prazerosa do que a escrita automática que estas comunicações atuais me causam. A materialidade e o tempo mais vagaroso que tudo isso envolve, na escrita de cartas, é quase que uma união de si com o outro por meio de uma meditação de como as coisas acontecem ao nosso redor; preocupar-se em chegar ao seu destinatário com sua originalidade da escrita e de suas palavras é costurar um laço de extensão entre dois corpos; ambos se cruzam pelas letras e se enlaçam na cumplicidade da escrita e da leitura, do “falar” e do ler, do se enviar e do receber.

Entendemos que as novas comunicações facilitam muitas trocas, diálogos, e o aumento da velocidade do pensamento, da informação e resolução de problemas. Mas a forma como estamos perdendo este apreço pelo modo slow de vida – e a carta poderia ser a representação disso – me soa bem triste. Por isso, saber utilizar estas ferramentas para os momentos e finalidades certas é importante para não cair no modo automático desse novo viver, um ritmo que, ao meu ver, é muito mais “industrial e de linha de produção” do que a real intenção da correspondência com o outro. Corresponder, segundo o Dicionário Analógico de Francisco Ferreira dos Santos Azevedo, é ter inteligência com, estar em inteligência com, manter relações, fazer cumprimentos, equivaler-se, retribuir, escrever-se.

.

.

.

Leaver a comment