.entrando em novembros, com ana c.

ana c. me olhando a fugir de tudo.

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tenho parecido ingrata quando pego os cadernos de literatura e todo esse jogo de palavras que os diálogos de amigos me dão e fujo deles como quem foge de uma noite inteira sem luz em casa foge-se pra qualquer lugar mas foge-se ainda mais para aqueles espaços entre as mentes que a gente não tem controle de nada e nem de nossas capacidades na velocidade da escrita ou de formular diálogos de amigos que fogem o tempo todo do colo que lhes peço. ainda que me pareço me percebo ingrata pego os cadernos de literatura e fujo dos aparelhos que me poderiam conduzir aos amigos e tento entreter entrelinhas de pessoas que já se foram entre pessoas que deixaram lá em 1989 a lembrança de alguém em potencial pra marcar pra sempre meus cadernos de literatura. sabia nada de mim e nem eu mesma sabia que em 1989 estaria de acordo com estas letras de ana c. e tampouco saberia eu que seria apaixonada por ela e por seu cadernos debruçados e marcados de literatura estou aqui há horas na madrugada fugindo inteira sem luz em casa à espera de uma palavra que me alcance que me alcance nas confidências nas simbologias de mulher apaixonada por outras mulheres nas mãos de quem sabe escrever cadernos e literaturas busco ana c. porque ela conforta algo de mim e me deparo com ana c. poetisada nas mãos de angélica freitas aquela que declarei outro dia desejar deitar um dia.

ana c. e angélica não fogem de mim agora porque as tenho nas mãos e sem luz em casa posso fazer delas o que quiser até releitura de versos de poema ganhado prêmio internacional a alguém que nos abandonou em 1989. 1989 não representa muita coisa pra mim nem a morte de ana c. agora representa porque sei que foi uma data importante às poetas a poeta segunda que versa à poeta primeira:

 

Ana C., por Angélica de Freitas

ana c. me salvou de ser técnica em eletrônica
aos dezesseis
quando entrou de vermelho
em minha vida
e me deixou
aos seus pés

eu não tive escolha
foi um baita clarão
soco na goela seguido
de cisco no olho

quem é ela
o que é isto
quem sou eu

em 1989 a gente não tinha google
as bibliotecas eram enxames
pré-vestibulares

saber de ana c. e em seguida
de seu suicídio
fez de mim uma das mais jovens
viúvas de ana c.

eu me perguntava
mas por quê por quê por quê
você foi se matar
como se uma guria toda errada
míope descabelada
no fim do fundo do país
fosse fazer qualquer diferença
em sua vida ou anseio de continuidade

mas foi assim que aconteceu em 89
e eu larguei meus estudos de eletrônica
porque até ana c. eu não sabia que se podia
escrever assim e eu queria escrever

também larguei por outros motivos
que não vêm ao caso aqui
e o que preciso dizer é

até hoje nós viúvas jovens e nem tanto de ana c.
sóbrias ou já meio loucas estamos procurando
uma noite de amor nas linhas de seus poemas

rezando para que saia enfim a tal biografia
que nos conte o que mais houve
para darmos visões novas ao nosso amor
e novos cenários para o nosso tesão

torcendo para saber que outras bocas ela beijava
porque afinal são sempre as nossas

e afinal são as nossas mãos que ela pega
até hoje quando escrevemos um verso, pelo amor -.

(poema do livro Rilke Shake)

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existe uma medida entre o descuido e a premeditação — trata-se do cuidado (floating attention).

medida exata entre o acaso e a estrutura.

aprender fazendo, baby.

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