.entrando em outubros, atrapalhada

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gostaria de falar de um sonho, mas as palavras ou minhas mãos parecem me corromper. a noite foi atrapalhada em meio a minha vontade em como gostaria de estar e como acabei estando. me coloco à frente de coisas pessoas mas sinto que quase não as enxergo. olhar para elas e não se identificar é me tornar imperceptível ao mundo espelhado de impossibilidades.

a noite foi atrapalhada e estive atrapalhada nela. não consigo mais tocar tanto os corpos como tocava anteriormente, nem me submeter às entrelinhas das mulheres que cruzavam minhas camas, a noite anda atrapalhada por demais.

vou contar uma passagem e talvez minhas coisas se esclareçam,

me deitei com uma moça

perdidas em embriaguez:

não lembro tua feição no prazer.

não lembro dos buracos que tuas mãos me acharam.

lembro somente das falas inseguras do amor. que travamos entre uma tentativa de enlace e outro.

lembro da música de fundo que colocamos. ain’t got no, i got life. ela, sonora, nos lembrando do quê não temos e de como ninguém pode se livrar de estar viva.

estou viva neste momento e ela também. mas a embriaguez, a vida atrapalhada, o cotidiano, das noites,

quase nos faz pensar que não.

(…)

digo a ela pra voltar [depois que passa a embriaguez]. não entendo muito de sua vontade de retorno nem da minha se desejo que volte.

as coisas que pra mim andam difíceis identificar me tornam uma pessoa atrapalhada. sei que essa palavra destoa completamente de meu texto e minha coragem na expressão. é que me olho e que me ouço dentro da palavra e fora dela e olho para muitos olhos e não os reconheço. onde estão estas pessoas dentro de mim? onde estou eu mesma nessa incapacidade de olhar?

(…)

descubro que a lua é cheia e meu fluxo mensal se alinha a ela. encho-me de esvaziamentos. meu sangue resiste em descer à porcelana do banheiro. olho pra esse fluxo, olho a lua bem cheia, a janela do banheiro dá acesso a muito do céu, lembro do poder que ela exerce sobre meu corpo e lembro do poder que ela, a outra, também exerce. sou amante e me assumo nisso. assumo que meu esvaziamento anda repleto e ainda atrapalhado. meu fluxo teima a descer e teimo em querer me perder nessas coisas todas. de ser amante, de ver a lua, nela, o fluxo, o preenchimento de minha falta de olhar.

abro o computador e troco todas as músicas por um poema. por saber como os Trovadores do Miocárdio me compreendem e poetam coisas sobre mim. [que boa pretensão]

ou das coisas que arrependo

ou daquelas que arrependo de não lembrar.

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PS1: pra quem assistiu-viu ao vídeo do link citado, Chet Baker é tudo que vale a pena no arrependimento.

PS2: Sylvia Plath de capa é só pra ilustrar como vão minhas noites.

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