.Fukushima Mon Amour, Doris Dörrie

mais tarde do que deveria ser.

acordo sem hora para o tempo.

estou com meu café, o sol acaba de aparecer, as coisas estavam escuras e os sonhos amedrontados. acordo resistente ao dia, o sol se escondia enquanto podia dar a desculpa de me esconder nas cobertas. as cobertas que não estiveram solitárias esta noite.

escrevi a resposta de carta ontem a noite, a resposta de um tipo de amor que hoje deixo me tocar mais livremente. escrevi e releio ela agora, pra ter certeza de que não vou me arrepender nos acentos ou nos aumentativos que tenha engrandecido demais na euforia de me enviar em carta desta forma.

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lembro-me que esta noite gostaria que ela acabasse de vez. que eu pudesse ter um amanhã que fosse possível pegar meu café e meditar nas horas em que o café fosse capaz de se manter aquecido. ainda que o sol apareça, a xícara esfria com a capacidade da concordância com meus pensamentos de agora. gélidos. e sem forças pra sentir algo por alguém.

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presa eu a minha dor, assisto, depois do sol, Fukushima Mon Amour. o filme que me identifico nos olhos escuros, nos olhos pintados de preto da alemã clown deslocada sobre a vida e que tenta trazer algum significado a si própria tentando amenizar a dor do outro através de alguma alegria de palhaço. a personagem que foge da dor de uma perda amorosa tentando entrar na alegria inexistente de um personagem que ela não é. se essa alegria não existe nela, como ela poderia passar isso a alguém que tem dor o tempo inteiro? a dor da perda, da destruição, da memória com culpa por sobreviver a um caos que a natureza enviou à cidade? será que Fukushima foi castigada pelas mãos daqueles que a alteram? se estas mãos não representam a maioria, porque atingir a todos com esse castigo?

é nesse deslocamento de virtudes ou éticas humanas-cidadãs que a mocinha do filme, em fuga com sua dor, vai aprender a resgatar a si própria. a cultura, o conhecimento milenar daquele lugar, os gestos, os silêncios, as sutilezas, o espiritualismo sábio e respeitoso existente o tempo todo, os excessos de dores que desaguam por cessar lágrimas dos sobrevivente de Fukushima, tudo no enredo se esforça pra mostrar a ela o quanto foi importante essa fuga da confortável Alemanha para a desolada Fukushima, pra mostrar a ela o quanto as incertezas e circunstâncias podem continuar com ela se ela não aprender que a mudança e o vitimismo não vão embora nunca enquanto não se deixar de refletir neles.

Fukushima desértica, fantasmagórica, encarou toda a dor da mocinha e fez diminuir esse excesso de individualismo que a levou a andar até ali, de país para país. corajosa, ela e Fukushima, se olham de frente e enxergam que há muita coisa por trás daquilo que não vêem no mundo dos homens que destroem. salvar a vida de alguém, começando por si mesma, parece ser o tema de resgate que a estrangeira não espera se deparar na cidade destruída. destruída muito mais do que ela. os acasos infortúnios conduzem a mocinha a organizar os sentimentos que a levam a fugir, a organizar a vida boa e estável para uma completamente vazia de planejamento, vazia de dor sem abrangência com a comoção da dor do outro, onde cada dia merece ser vivido no ápice da falta de futuro. sem saber como sobreviver e deixar que a ocasião de Fukushima lhe mostre. os aprendizados da surpresa cotidiana fazem com que a mocinha não se anteceda ali nos dias e nas horas e responda tão somente às forças dos sobreviventes do local, as vontades deles, agindo de acordo com o quê os seres dali lhe promovem. os dias dos envolvidos fizeram cada movimento objeto de estudo e compreensão para ela, estendendo em troca sua presença e atenção – e doação sobretudo – àqueles que sobrevivem Fukushima e ajudam a si a se situar em sua própria dor.

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