.je, tu, il, elle, 1974, Chantal Akerman

17 de julho,

à noite.

vejo je, tu, il, elle, de Akerman.

a moça que deveria ser eu em filme. a moça que come açúcar puro do saco de pão, a colheradas absurdas e demasiadas, secas e compulsivas. a moça que joga suas palavras num chão em que ela mesma possa pisar. a moça que não cabe na roupa, nem na existência, a moça que narra sua história antes que as coisas aconteçam. a moça que antecipa fatos porque talvez é o que acalme ou suspenda más surpresas pela frente. o trajeto feito com o caminhão, na carona de um moço que não sabe ser pai, compulsivo sexual, possível abusador?. o trajeto do banheiro como observadora, o trajeto até a casa da amante que descobre o peito e deixa à mostra e em mesa posta de comida.

na cama, à moça, um jeito descoordenado de transar. não se sabe se briga ou se ocupa o mesmo espaço de dois corpos. dois corpos que se querem se emaranham de tal forma que se perdem na tentativa de espalhar o lençol no amor.

uma delas abre as pernas para um mundo cheio de cabelos e compridos e tentativas de acerto pela boca no local. a outra se curva diante de um universo feminino preto&branco, confuso, diatômico, existencial.

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E foi quando eu parti.

Um pequeno quarto branco, no térreo, tão estreito quanto um corredor, onde eu, imóvel, com os sentidos aguçados, deitada em meu colchão.

No primeiro dia que eu pintei a mobília de azul.

No segundo dia eu pintei de verde.

No terceiro dia, coloquei tudo na sala.

No quarto dia, fui deitar no colchão. O quarto vazio parece maior.

E no quinto dia, eu mudei o colchão. Depois que o levantei, coloquei em frente da janela, depois coloquei contra a parede.

Fui me deitar. E no sexto dia escrevi uma carta. Deixei claro o que queria.

No oitavo ou nono dia, reescrevi a segunda carta enquanto comia bastante açúcar.

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O filme Je, Tu, Il, Elle (1974) é um drama belga da diretora Chantal Akerman, a qual gosto muito de sua linguagem, liberdade e independência na criação. Baixei o filme do site Filmes Cult.

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