.Kundera e a insustentável leveza de se ser

(com spoiler, hihi =D)

Kundera me trapaceou. Fez apaixonar pela personagem que não era a principal.

Sabina esteve comigo por boa parte da história. Quando Teresa, Tomas e Franz ganhavam espaço no enredo, ficava a imaginar como é que andava a solidão de Sabina. O anverso da capa já havia me alertado, “por força de suas escolhas, cada um deles experimenta, à sua maneira, o peso insustentável que baliza a vida, esse permanente exercício de reconhecer a opressão e de tentar amenizá-la”. E, à minha maneira, eu sentia a dor dela, a sua insubsistência na vida da leveza. Pois ela possuía quase as mesmas vertigens que eu, aquelas que a gente se pergunta – e Kundera também se perguntou – se é medo de cair? As minhas, outrora, não foram mais obra do acaso físico corpóreo? Não. Absolutamente e não. Sabina se ligava à minha vertigem, a minha vertigem de ser, de sonhar, de desejar a pele que se esconde abaixo de seu chapéu. A medida que Kundera me apresentava Sabina, nos tonteávamos juntas e chorávamos, brindando o acaso que se tornou caso cotidiano de nossas manias: a vertigem da falta de leveza de seres.

Admiro Sabina. Sempre preferia que seu desfecho fosse mais bonito que o meu, que acabaria com meus olhos comovendo com o triste final – mas necessário – de Teresa e Tomas. Estes ambos que não deve ser mero acaso do escritor ter posto tão oclusivas suas iniciais nos nomes. Gente tabaquística, ao mesmo tempo em que tônica, vitais aos tecidos que encobrem a sujeira da história. Ela, menina, impregnada de criação condenável, que lhe jogou na vida num apelo gratuito de importunação. Que fez, assim, seu destino submisso, costumeiro, traidor. Fez-lhe mulher calada, chorosa, esquecida de identidade por, sobretudo, ser mulher. Oscilante, por toda a obra, Teresa era oscilante, sempre bambeante entre a leveza e o peso de se ser quem se é.

Já Franz e Tomas tomaram, pra mim, o mesmo papel que quaisquer outros homens na história tomariam. Embora eu tenha sorrido em muitas partes em que se tornaram “super heróis”, salvando suas próprias vidas, pátrias, enfrentando o regime que lhes oprimiam, que lhes degradavam. Mas foram eles. E não elas. E isso foi o quê me frustrou. As fotos que Teresa registrava eram dignas de longos discursos ao longo de toda obra, pois ela enxergava – sempre ao seu modo – o que mais ninguém o via. Só que ela foi perdendo cor… foi entrando em desamor consigo mesma, foi ficando sem forças em nome de um amor, por um amor, por um amor de um homem, por Tomas.

Até que aparece Karenin. E esta foi quase sua salvadora. Em nome de Karenin o final mereceu de mim um compartilhamento amoroso das ideias, quando provou aos seus donos o real significado da lealdade. Karenin morre com aquilo que se morrem os homens e é na sétima parte de meu livro, coincidindo com a imagem do sétimo dia criado por deus, que há a melhor descrição do Gênese que eu já poderia ter lido: “O direito de matar um veado ou uma vaca é a única coisa sobre a qual a humanidade inteira manifesta acordo fraterno, mesmo durante as guerras mais sangrentas.” Karenin prova a eles que o universo dos animais é muito além que essa suposta fraternidade entre as pessoas. Por ela Teresa mudou. Tomas também. Karenin transformou o campo em uma opção habitável de silêncio de mundo. Ambos personagens perderam o quê alguns chamam de missão, mas ganharam o conteúdo de suas existências. No campo.

A liberdade que Kundera representa na obra foi exatamente o que me fez lê-lo. Toda retratação destas realidades – que são nossas de forma atualizada – me fez compreender que somos gentes grandes nas escolhas, nas lutas pela sociedade pluralizada. Pela competência em desfazer conceitos, ultrapassados, e desconstruir paradigmas. A leveza de Kundera é exatamente a minha falta dela. Aquilo que nem eu, nem você, nem personagem secundário algum pode sustentar em se ser. Foi com a mesma trapaça inicial que me conquistou que fez com que este mundo literário se tornasse tão meu, durante os sete dias que perdi ao lê-lo.

Na verdade não o perdi coisa nenhuma, ganhei Sabina como uma das minhas personagens preferidas de muitas literaturas que já li.

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Querem saber mais de Sabina? E de Karenin? O livro é de Milan Kundera, A insustentável leveza do ser.

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