.Luana, 23. gosta do cheiro das pessoas, mas tem de controlar o estômago nisso.

Luana. Luana tem suas escolhas. Luana faz suas escolhas. Conforme os dias vão apresentando graus de dificuldade.

Luana se levanta num tempo que nunca sabe se dia, se noite. Escolhe uma música, põe pra tocar, é clássica, Paganini traz ela de volta ao corpo quando os turbulentos sonhos do pouco sono pedem calma. Ela levanta, geralmente desajeitada, pega um copo d’água pra tirar o gosto de ontem, aquele gosto que demora a sair. Luana levanta, se vê no espelho, ajeita os cabelos, passa a mão neles, sente a oleosidade nos dedos, é sempre tudo tão intenso, tantos movimentos rápidos, vezes bruscos, não se tem como manter os fios intactos para o próximo dia. Além do cheiro, o cheiro, o cheiro nos cabelos, o cheiro de quando cada um tem seu cheiro, próprio, um enoja, outro é bom, outro tempero para se lembrar de como são suas noites e ela poder me mostrar como as coisas são nos dias. Não percebo se Luana é boa pra fingir, se encara nossa conversa como um ensaio, ou uma entrevista, se finge comigo como finge para os clientes de cheiro próprio, para os clientes de cheiro bom. Luana insiste em me falar sobre os cheiros, talvez seja algo que ela mais se concentra nas noites, ou se apega para controlar o estômago, o estômago que lhe sobe à goela quando é difícil continuar a cumprir. A cumprir o papel de Luana. Nem sempre suas noites são ensaios ou entrevistas como essa que ela me conta neste momento em que a ouço.

Luana faz uma pausa, quer molhar um pouco da boca, a boca que continua seca por se lembrar de sentir o gosto de ontem. Deixo Luana à vontade, afinal, meus ouvidos são dela e eu sou apenas uma ouvinte que oscila entre compadecimento e admiração pela história que me conta. Luana toma o copo, vejo a água trocando de ambiente e entrando nela da mesma forma que sua história entra fluida em meus ouvidos. Luana continua. Como continua nas noites, como continua nossa conversa, como continua a vida. Ouço tudo acomodada em minha cadeira, não tomo sua água por medo de perder sua história entre um gole e outro ou deixar escapar alguma palavra nesse líquido que eu absorveria. Passa um tempo e noto que Luana confere repetida as horas, confere as horas do dia e vê que tem pouco tempo pra restabelecer o corpo. O tempo passou e Luana não se atentou a verificar os relógios antes, nossos ponteiros se ajustaram conforme sua história abalou minha acomodação na cadeira. Ela me diz – é hora outra vez, digo que tudo bem e que vou m’embora. É hora de começar o trabalho de novo, de começar a se aprontar de novo, o pequeno espelho que tem à frente lembra ela de refazer maquiagem, organizar os fios, ainda melados, de trocar a lingerie, tudo pra que não se deixe vestígios a ninguém. Nem ao homem de ontem, nem ao que vai vir.

Luana tem 23, mora em São Paulo, num bairro distante de onde eu moro, mas trabalha na minha rua. Luana é profissional do sexo e todas as falas sobre a vida dela estão sendo selecionadas pela minha indecisa vontade de exposição.

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