.Matteo perdeu o emprego, Gonçalo M. Tavares

Sentei com Matteo pra tomar um café. Matteo tinha cara de boneco, que me intimidava lembrando o boneco da barbie, aquele que eu não gostava na infância. Na dúvida se continuava ou desistia do papo, pedi logo que ele se apressasse e me contasse o motivo do nosso café. Foi então que começou a me dizer sobre todas as histórias que Gonçalo criou para eles. Sobre todas as histórias que criou cuidadosamente pra cada um deles. Todos os personagens, tão diferentes e tão iguais. A minha ida ao café, pegar Matteo em minhas mãos, segurar um livro com capa de boneco, mas com uma literatura fluída (ufa!), umas páginas mais interessantes que a outra, me fez descobrir sobre como cada personagem é incrível nesse livro! Foi Matteo quem me falou, quem me contou de todos eles e foi dessa forma que os conheci. Que conheci Horowitz, o homem do dedo que aponta para o passado e descobre uma atualidade que lhe mete medo. Que conheci Kashine e seu poder sobre a palavra NÃO, uma palavra de três letras e tão poderosa, que conheci sua falta de “digestão mental” aos argumentos dos distúrbios do dia-a-dia. Conheci o colecionador de baratas, os 7 homens que possuem Razão e que se matam uns aos outros em meio às ondas de Loucura. Conheci Cohen, o homem dos tiques e que conta tiques que passam despercebidos nas ruas das cidades – ninguém vê o tique alheio. Conheci o homem cego que era obcecado por outro homem e por suas costas preenchidas pela tatuagem de tabela periódica – uma tabela que resignifica a química entre eles. Descobri como alguns labirintos estão tão presentes em nossas rotas diárias – caminhos labirínticos, como homens perdidos nessas rotas diárias representam a nossa perdição na arrogância do saber, na experimentação vertiginosa de sensações que provocam tontura em meio a não compreensão dos caminhos na vida. Conheci mais sobre a rotunda, uma palavra que descobri que se usa para designar a forma circular da construção de coisas que, neste caso, liga todos os personagens como se estivessem num círculo vicioso ou em interligações de acasos.

Personagens que nada mais são que extensões de imagens de pessoas urbanas, muito presentes no nosso dia-a-dia e que, não por acaso, nos rodeiam como numa rotunda. Matteo me contou de muitas coisas, dos lixos acumulados e das pessoas que não se deixam vencer por esses lixos que engolem o homem. Contou da prostituta que dá o alimento amor aos corações mecanizados, dos relógios em braile de alguém que possui tanto poder aquisitivo que se sente capaz de poder exigir simpatia de qualquer pessoa através de seu dinheiro. Matteo falou, falou, falou, que me perdi nas horas dele e sem perceber me emaranhei nas fumaças que ele soltava enquanto tragava e bebia – seria ele ou eu quem soltava?, mergulhei em cada particularidade dos universos que ele me apresentou. Só tempo depois percebi que talvez seja por isso, pela fala demasiada dos modos de vida de pessoas anônimas (e que outras pessoas julgam desinteressantes), que o livro deu a Matteo um desemprego.

(…)

Terminei meu café, ele também. E no final dividimos a conta, pois ambos se perdem no não emprego.

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A história completa que Matteo me contou está no livro de Gonçalo M. Tavares, Matteo perdeu o emprego.

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