.Só Garotos e Linha M, Patti Smith

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Querida Patti,

eu deveria escrever resenhas sobre Só garotos e Linha M. Ou seja, deveriam ser textos objetivos, que descrevessem o perfil e o estilo dos dois livros de forma a dar um panorama geral que não estragasse a leitura de ninguém, mas que provocasse curiosidade e o desejo de ler os livros. Entretanto, isso me pareceu uma forma de traição: em Só garotos, você me contou sua infância, sua juventude, sua fixação por Rimbaud e Genet, seu amor por Bob Dylan, seu romance e sua amizade com Robert Mapplethorpe, seus lugares preferidos em Nova York, sua viagem à Paris, seus poemas, suas primeiras músicas, a vontade de uma geração de viver de arte enquanto eram “só garotos”. Você me trouxe o desejo irrealizável de pertencido a Nova York dos anos 70, à geração beatnik, de sentar com você em um café e comentar aos cochichos sobre Jimi Hendrix e Janis Joplin que estavam nas mesas ao lado. Em Linha M, mesmo sozinha em Nova York, com o marido já falecido e os filhos fora de casa, você me deixou te acompanhar todas as manhãs até o Café ‘Ino, sentar com você numa mesa de canto perto da janela, fazer listas, terminar romances de Bolaño e Murakami, viajar com você em busca de fotografias dessas inspirações artísticas e literárias. Você me levou até o México para fotografar com sua câmera Polaroid o quarto e o vestido de Frida, me levou até a Inglaterra ver o túmulo de Sylvia Plath, me mostrou que é normal não encontrar Murakami nas ruas de Tokyo, me transportou até Berlim de O mestre e a margarida. Você me contou do vazio, do silêncio, da saudade, do nada. Me contou sobre seus filhos, me contou sobre Fred, seu marido, que sempre volta: os lugares e as coisas sempre te trazem a memória de Fred. Uma de suas músicas que mais gosto é Frederick, imagino que seja esse seu Fred e até isso você compartilhou comigo. Em Só Garotos, você me provocou a vontade de ter sido sua amiga e ter vivido com você a Nova York dos beatnicks lendo Baudelaire e Rimbaud. Em Linha M, você me provocou a vontade de ainda ser sua amiga e de te dizer que vou ler Murakami, mas que tenho certeza que você gostaria muito se lesse Guimarães Rosa.

Seus livros não só me causaram o prazer de ler um bom livro, mas também o desejo de ter amiga como você. Por isso, não seria possível para mim fingir objetividade num texto sobre um livro que me lembrou quando eu andei pelos cemitérios de Paris em busca dos túmulos de Baudelaire, Beckett, Proust e Jim Morrison. Você me contou em Só Garotos que fez a mesma coisa, me contou também quando soube da morte de Jim Morrison, um dos momentos que o rock começou a entrar na sua poesia. Muita gente achou estranho quando fui fazer tais caminhos nos cemitérios de Paris, mas eu sei que você entenderia isso, pois em Linha M passou sua viagem a Tokyo no cemitério procurando Kurosawa, assim como voltou três vezes aos túmulo de Sylvia Plath e viajou muito em busca da prisão e do túmulo de Genet. Você me lembrou as noites frias do natal em Paris em que eu ficava ouvindo Wave  Horses com meu amigo Caio e até me revelou como as fotos das capas daqueles álbuns foram feitas. Quando me falou da ausência e da lembrança de Fred, do relógio sem ponteiros, das fotos polaroids, das listas, das xícaras de café, da eterna busca por um bom café na cidade, um café que você possa sempre sentar e se sentir acolhido, escapando do vazio da cidade grande, eu só pensava como precisava dizer a minha querida amiga Greta que eu tinha encontrado alguém que estava no mesmo dilema que nós: procurando um bom café, uma mesa de canto, um bom romance e bons poemas, um jeito de lidar com o tempo e com a perda das coisas e das pessoas. E até nos inúmeros trechos de Linha M sobre suas séries de detetive, você me fez me sentir menos sozinha quando descreveu o amor e o vazio que séries e livros podem causar em nós, como podemos amar verdadeiramente aquelas pessoas que não existem.

É muito difícil fingir objetividade e frieza onde floresce afetividade. Provavelmente você não lê português e nunca lerá essa pequena e modesta carta. Contudo, quero acreditar que, como uma amiga, você entenderia a afetividade desse texto e como isso se relaciona com os abraços e com os consolos que bons livros podem provocar em nós.

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