.sobre um pouco, sobre as crianças que não localizei no google e onde o uber não chega

11 de dezembro, na comunidade do Jardim Cristiane, Santo André.

recebi o convite da Nathalia, a amiga que tanto admiro e me serve de referência para a coragem e doação de afeto, para registrar um momento importante para ela. há um ano que Nathalia desenvolve um trabalho bonito e sincero com crianças de comunidades carentes em Santo André, crianças que buscam um pouco de fé na pastoral da igreja católica da qual ela segue.

combinei com Nathalia o encontro às 8h e meia da manhã de um domingo chuvoso e cansado, um domingo que a gente deseja ficar e não encarar o mundo por aí. combinei com Nathalia o encontro na estação de trem mais próxima a ela, mas a minha falta de ânimo para cumprir com tantas coisas que me envolvo me fizeram perder a hora de um relógio que desperta e eu desligo. desligo e perco a hora e depois saio correndo quando percebo existir esperança de alcançar Nathalia em seu excesso de ânimo que me mostra um pouquinho sobre tudo isso valer a pena.

saio correndo pego o metrô da linha amarela, da linha privilegiada que posso pegar na calçada da minha casa, pego e ainda vou sentada, pois naquela hora pouca gente acorda pra encarar alguma coisa de domingo fora de residência. troco o metrô na linha azul, sigo até o outro extremo da estação, demoro por volta de 1h para chegar na metade de onde eu já deveria estar àquela hora. desço ali, em meio a tanta gente indo ou chegando, penso – como é que aqui nessa linha há tanta gente já acordada? e logo percebo que minha pergunta é estúpida e as coisas são obviamente separadas em respostas diárias com as divisões que os bairros de são paulo ocupam.

continuo a sair correndo, desejo que o caminho se encurte, tomo depressa o troleibus que há tantos anos não tomava, me prolongo a divagar sobre as diferenças de pessoas que sentam ali também. eram 10h e dez quando chego na estação da qual achei ser perto do Jardim Cristiane, Nathalia compartilha comigo sua locação de whatsapp, mas nada me faz achar aquele jardim e comunidade, a comunidade que não localizo no google e onde o uber não chega.

sento num posto, fico desolada sem saber como chegar até o jardim de Cristiane, a dona do bairro que deu o nome sabe-se lá porquê e como ficaria muito decepcionada comigo se soubesse que eu havia desistido de assitir àquelas suas crianças.

insisto mais um pouco nas buscas dos aplicativos do celular, pergunto a taxistas e demais motoristas da cidade, ninguém sabe que existe a comunidade, sinto que vou desistindo, tristemente desistindo, a minha impotência de caminhar até elas me faz querer chorar naquele lugar que me sinto tão estranha, estranha na cidade em que nasci tentando achar uma parte que não sabia existir.

combcomu

passado 40min, um colega de Nathalia, um querido colega de Nathalia, surge como se tivesse caído do céu para me resgatar, me busca onde estou perdida e me carrega até a comunidade da qual já era para estar há 3h atrás. sinto que as coisas acontecem, às vezes, sem explicação e não sou eu quem vai atrás de saber o porquê dessas coisas acontecerem assim tão magicamente.

mágica e felizmente encontro Jardim Cristiane, que tão breve me mostra que a mágica é não achar que felizmente é um sentimento que se depara com as coisas e pessoas que estavam ali a me aguardar. crianças e pais que estavam vidrados com tudo que Nathalia e seus amigos da igreja se esforçaram em 1 ano para realizar. crianças e pais que não me conheciam, mas me olhavam com a familiaridade da qual eu pareço reconhecer só o significado que os dicionários me trazem na bolha da qual me acesso. crianças e pais que me recebiam parecendo eu a criança daquele lugar, a criança perdida e desencorajada de encarar tantas realidades diferentes e marcadas pelo peso que traz o mundo em cada uma de suas histórias.

não só fui criança como também percebi que as coisas são mais doídas de serem encaradas do que um simples domingo que chamo de chuvoso e cansado. quantas coisas se molham ali todos os dias e quantas outras se encontram fatigadas?

paro de pensar e me esforço para cumprir parte da ação que me foi imcumbida, olho para elas com o olhar escondido da emoção, as lentes me escondem no desabamento que eu me deixaria levar se não pudesse estar escondida dessa forma.

elas me mostram um pouco sobre elas, um pouco sobre suas formas de sorrir e suas outras formas de ignorar o que dói do mundo e desfrutar daquele momento que foi especialmente organizado para elas.

tenho certeza de que Cristiane, a dona desse Jardim assim, um tanto forte e corajoso e outro tanto tão resignado, deve olhar por elas de onde está. só é possível acreditar que alguma força superior ou misteriosa é quem cuida delas.

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Comment (1)

  1. gretacoutinho 13 de dezembro de 2016 at 21:40

    Fascinante. Estou emocionada com.suas palavras. Elas escorregam em meus ouvidos tamanha a docilidade que expõe a realidade. Parabéns querida.

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