.sobre um pouco, sobre um pouco de mim em Lins

9 de novembro, 2016.

avisei mamãe que gostaria de visitá-la. liguei a ela dizendo que gostaria de ir. ficar, estava difícil ficar.

desliguei o telefone, arrumei poucas roupas na mochila, peguei minha vontade meu caderno e meu livro que insisto em não terminar. é difícil assumir, mas certas coisas não acabam nunca pra mim.

foram 6 horas de viagem, um ônibus que tentava me mostrar a melhor posição para dormir e o meu corpo em resistência para cessar a ansiedade da chegada.

cheguei e eram 5h e meia, não tinha sol, não tinha dia, tinha pessoas deslocadas ou perdidas a qual calçada seguir sem conhecer direito a estação e a cidade sem dia nascido ao certo. tinha muita estrela no céu, isso eu e os outros notamos, avisto junto das estrelas mamãe fazendo questão em me achar naquela estação e reforçar a ideia de que as estrelas ali pareciam gostar de se fazerem vistas.

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10 de novembro.

acordo ainda meio torta da poltrona da viagem, me ajusto à cama da nova casa mas meu corpo parece se perder nestas sensações. acordo com torcicolo que não compreendi muito bem se se referia ao meu estado de querer estar ali logo ou se as consequências da minha ida inesperada traria algo desajustado em são paulo que deixei de resolver. parece que meu corpo se desajusta junto com a minha capacidade de imaginar isso acontecendo entre as cidades.

noto que a casa, a casa inteira, a casa é cheia de frestas, é cheia de espaços para que as coisas aconteçam, e é cheia de espaços para que aconteçam dentro dela. é cheia de trechos entreabertos receptivos a quem chega e deseja ficar.

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depois do torcicolo, tomo café. tomo café lento, o café e minha velocidade não se ajustam tão imediatamente, observo vovó e vejo ela se abanar muito às 10h e meia da manhã, às 10h e meia não há sol, não tinha dia direito ainda pra mim, não tinha chegado meu corpo ajustado, o torcicolo e os pensamentos do quê ficou em sp tentavam tirar proveito do seu leque que abanava descomedida.

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observo vovó, observo o tempo todo os movimentos que ela faz. observo tentando observar dentro de mim o quê seria de mim se eu tivesse de levar os mesmos movimentos que os dela?

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os dias passam por aqui de uma forma que não acompanho. pareço não chegar nunca neste lugar. é como se as horas passassem rapidamente ou minha vontade de que elas não corressem ou se movimentassem tanto, se perdesse a contagem destas horas.

entre não conseguir ver a dimensão do tempo passar é que percebo que deixo meu corpo em todos os lugares, deixo na casa, deixo em todos os lugares da casa, deixo os olhos verem o bastante de cada detalhe, as mãos tecerem o acompanhamento dos movimentos de vovó, minha mente em algum lugar ainda que não achei e vou deixando deixando e observando como o relógio conversa com a minha falta de estado ou lucidez do que é esta vida senão essa vontade absurda de estar nestes estados e tempos lugares tão simples, tão simples, capazes de remeter a nós mesmos em um nós que nasce nisso, se perde e depois quer voltar.

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11 de novembro.

as ruas me mostram um pouco da cidade. as ruas me mostram um pouco sobre aqui. me esforço pra acreditar que é em são paulo que o movimento acontece, mas meus olhos e minha câmera tímida se esforçam para mostrar que nem sempre é assim.

as coisas andam, as coisas se mostram como são, as coisas sobem ladeira sem ajudas ou estímulos, as coisas estacionam quando é preciso e as coisas se balançam conforme o vento das coisas deixam passar.

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há um inesperado e perdido anseio para compreender as coisas.

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12 de novembro.

as pessoas me mostram um pouco delas, me mostram um pouco delas nessa cidade. tento vê-las e adentrar em seus sentidos. vendo elas talvez encontre respostas para a minha cabeça que ficou em são paulo e não chega nunca por aqui.

não adianta, há muito o quê se juntar destes corpos.

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13 de novembro.

as partes das casas, as partes das pessoas nas casas, as partes da cidade nas pessoas, o que há dentro de cada um? vejo, procuro, tento juntar as peças. o tanque me mostra onde se esfrega a roupa, mas quem é que esfrega ela?, os calçados são esfregados, ensaboados à maneira antiga, mas quem se deve calçar eles?, o ventilador que é de teto, abafa a quem?, e as pinturas, os quadros, a herança de alguém artista, quem se desejou pendurar flores ali?.

as partes e as coisas, tentam se emoldurar umas às outras, talvez com a mesma medida que tento eu fazer isso com elas.

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