.solidões

colagem feita a partir das ilustrações da artista Alexandra Levasseur quando das sensações de leitura do livro A Mulher Desiludida, de Simone de Beauvoir

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há um mês que tenho A Mulher Desiludida (La Femme Rompue) nas mãos. passei pela primeira personagem, em A idade da descrição, e me deparo com a sua resistência na aceitação da velhice, da sua perda de capacidade física para as atividades corriqueiras, da sua inabilidade rápida para o raciocínio ou expressão de escrita em sua própria literatura. ela é escritora, casada, não se conforma com a possibilidade de envelhecer, se deprime o tempo todo ao longo da narrativa, se isola de tudo e vê o quanto está se tornando uma mulher implicante com o mundo que não a acompanha mais, justamente pela falta de aceitação no avanço da idade. depois, chego em Murielle, em Monólogo, uma mulher que possui um fluxo de consciência muito ligeiro e oscilante, pensa muitas coisas ao mesmo tempo, coisas na maior parte do tempo deprimentes, ao passo que se sente destruída pelo não sucesso de seus casamentos e pela morte da filha – que, por sua vez, se suicida pelo sombrio contexto em que nasce –, Murielle se isola da sociedade e se coloca destituída de pessoas e dela mesma dentro de uma mente pouco saudável e infeliz. por último, paro em Monique, aquela que carrega o nome do livro como tema de seu conto, aquela que resiste interiormente o fim do amor de seu marido e acompanha de perto, silenciosa, sofrida, desiludida, ele indo viver um novo amor, um novo amor com uma mulher mais jovem, mais deslumbrante, mais ambiciosa que ela, uma mulher que desperta nele o que ela despertava quando se conheceram. assisto a todas essas mulheres de Beauvoir e me identifico com muitos sentimentos delas, me identifico e localizo que outras mulheres ao meu redor também se identificariam, são personagens mulheres que levam em si emoções e comportamentos quase que universais, sentimentos que negamos e criamos crostas dentro da gente quando não assumidos ou não resolvidos de forma lúcida e sincera com a gente mesma. me vejo nestas mulheres e vejo que elas são representadas sob muitas formas na arte, a obsessão em tornar imagético o sentimento das mulheres vem de longa data. assim, resolvi me apropriar de algumas mulheres de uma artista da qual gosto muito, Alexandra Levasseur, para criar um laço no emaranhado de sensações que este livro tem me traduzido. briguei tanto com esta colagem, briguei tanto com as mulheres do livro e as mulheres de Levasseur, que não consegui chegar num resultado do qual eu gostaria como definitivo, logo compreendi que meus sentimentos – de mulher – andam tão mal resolvidos quanto todas estas que ponho na colagem, quanto todo o fluxo de pensamentos que Beauvoir registra e nos mostra tão arduamente, a falta de aceitação, o apego, a possessividade, o excesso de controle, e tantos outros assuntos que não digerimos e não sabemos lidar me colocam batendo de frente comigo mesma na representação de cada uma delas. aquelas que não se enxergam, que tapam os olhos, que não se veem, não se localizam no mundo, desanimam consigo mesmas, se veem empossadas e mergulhadas em situações que elas mesmas criam, adicionalmente à força que vem de fora da cultura que se inserem – o contexto social e a intempérie do psicologismo adquirido.

embora a imagem possa parecer deprimida demais, reconhecer estes sentimentos por meio de um livro foi muito mais consciencioso do que negá-los. desenhar tudo isso por meio da colagem foi mera escolha de expressão e tentativa de força de assumir estas coisas dentro da gente.

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