.The lobster, Yorgos Lanthimos

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The lobster foi um filme que me pegou com um soco no peito. uma crítica social fílmica, onde as questões que mais afligem a gente são retratadas de uma forma extremista, porque talvez a metáfora valha a pena: de sermos extremistas nestas questões que afligem quando não deveriam afligir: estar só ou andar acompanhado?

the lobster mostra sobre uma sociedade em que ser solteiro é inaceitável. ser solteiro, ser solitário, ser fingidor no amor, deixar de conquistar as pessoas, viver viuvez, escolher viver no seu tempo… tudo isso é inadmissível. os seres humanos deste filme devem necessariamente andar aos pares, andar afetivamente ativo, andar rodeado de pessoas que não devem fingir seus sentimentos e tudo deve ocorrer da forma mais perfeita possível. as pessoas devem se relacionar, devem escolher um parceiro ou uma parceira, devem não brincar com o sentimento desta escolha, devem amar consideravelmente, devem tentar fazer dar certo um tipo de amor que se tem apenas 45 dias pra se saber amar.

como isso funciona pra gente, que tá do outro lado do filme?

como funciona isso na nossa realidade?

the lobster é uma sociedade em que tudo é medido, cada movimento da pessoa é observado, cada sentimento também. não existe individualidade. não existe privacidade. apenas pressão pra se seguir às regras e tudo severamente punido se sê fugir a isto.

peraí, vou contar direito:

o personagem principal perde a esposa, fica viúvo e, no dia seguinte, a alta hierarquia de controle daquela sociedade envia ele a um hotel, onde é obrigado a arrumar uma nova parceira dentro de 45 dias – e sem fingir o amor. ele mal consegue entender direito quem é ele, qual a sua sexualidade, se deseja provar outras coisas, se deseja calçar sapatos de números maiores, vestir camisas novas, se redescobrir. ele não tem esse direito, é simbolicamente castrado de si.

dentro dali ele tem que seguir todas as imposições e conquistar uma nova parceira o mais rápido possível. se em tudo isso ele falhar, tem o único direito de escolha: decidir virar seu animal preferido. the lobster é a escolha deste personagem pois, segundo ele, poderá viver sozinho dentro do mar, da forma e no ambiente que ele adora. mas, faltando apenas 4 dias do prazo, ele se vê pressionado a escolher como amar porque sentiu que não desejava virar um animal tão de repente quando sabia que ainda havia muito o quê se viver. será que virar um animal não seria um tipo de liberdade pra ele? ou talvez ele reconheceu que ser humano é um grande tipo de liberdade alcançada?

sem saber respostas ele foge. e encontra um outro tipo de sociedade em que é somente permitido ser solteiro. é permitido ser completamente solteiro e solitário. e será nestes dois extremos de imposições que o personagem vai se rebelar, pois no fundo ele não desejava nenhum extremo, apenas ter uma vida simples de estar à beira de praia com a mulher que pudesse naturalmente escolher a amar.

isto acontece. dentro desta sociedade também proibida ele encontra um amor. mas a identificação por este amor é tão ridícula, que ambos ficam tentando localizar no outro, pontos em comum que lhes proporcionassem amar um ao outro: as diferenças parecem ser sempre um obstáculo para nós, não é mesmo?

the lobster tem esta atmosfera… uma dubiedade de sentimentos, de extremos dentro de extremos, nos apresenta a nós mesmos nossa incapacidade de amar, de saber amar e de querer isso.

é uma comédia dramática e ficção científica, mas estes dias me lembro de uma amiga me aconselhando que o amor deve ser algo leve e fluído, gostoso de estar perto e de sentir saudades também. tudo naturalmente agradável, amigavelmente amor. the lobster me mostra o quanto a ficção é realidade e o quando ainda não sabemos movimentar esse amor dentro de nós e fora de nós.

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The Lobster (2015) é uma comédia romântica e ficção científica, do diretor grego Yorgos Lanthimos (1973).

O filme completo está disponível no Filmes Cult.

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